Criança e Consumo discute fantasia da ‘Trupe de Elite’

Em cinco respostas, a psicóloga do Projeto Criança e Consumo, Lais Fontenelle Pereira, explica o fascínio da fantasia do Bope - apelidada de 'Trupe de Elite' - pelas crianças da cidade do Rio de Janeiro. A mestre em Psicologia pela PUC-RJ acredita que a criançada foi influenciada por um conjunto de fatores e entre eles estão o cotidiano e a realidade da cidade.

“Como 'Tropa de Elite' foi um sucesso nacional, a sociedade civil se apropriou dos termos e gírias do longa e os usou na frente de crianças”, diz. “A partir disso, as crianças foram conhecendo e se apropriando desse repertório”, pontua.

www.criancaeconsumo.org.br - Há uma explicação psicológica que justifique a escolha da fantasia do Bope pelas crianças cariocas?
Lais Fontenelle Pereira
- Acho difícil dar uma explicação psicológica. Para mim, a questão está mais ligada ao social. As crianças do Rio de Janeiro não elegeram essa fantasia de maneira aleatória. Essa roupa foi escolhida porque fala da realidade social delas.

Quando uma criança escolhe uma fantasia, além de elaborar questões que a angustiem, ela quer expressar algo que geralmente envolve seus desejos. As meninas tradicionalmente querem ser princesas, os meninos, super-heróis. Será que as crianças de hoje querem ser agentes do Bope?

www.criancaeconsumo.org.br - Será que elas não se impressionaram com o filme “Tropa de Elite”? Afinal das contas, ele foi o hit de 2007 e muitos filhos pequenos viram o longa com os pais. Além disso, as crianças não se rendem facilmente a modismos?
LFP
- Sim. No entanto, não é saudável que a escolha da fantasia do Bope tenha vindo de um filme que nem é indicado para a faixa etária delas.

Esse tipo de escolha é mais fácil de acontecer e entender quando ocorre entre crianças que convivem com o Bope e vêem os policiais da divisão subindo o morro do que por crianças que são supostamente protegidas dessas cenas violentas.

Pesquisas indicam que a criança brasileira está entre as mais medrosas do mundo. A partir desse dado, podemos entender um dos porquês da escolha dessa fantasia. Isto é, as crianças do Rio parecem temer a sua realidade.

www.criancaeconsumo.org.br - Qual é a relação entre fantasia do Bope e consumismo infantil?
LFP
- Se alguém criou e fabricou uma fantasia ligada ao universo adulto para crianças é porque elas foram elevadas ao status de consumidoras antes mesmo de se tornarem cidadãs.

Antigamente, o que separava o universo infantil do adulto era a alfabetização formal. Para entenderem alguns segredos do mundo adulto, as crianças precisavam saber ler e escrever.

Diferentemente de hoje, em que, através da televisão, as imagens imperam e falam diretamente com a criança.

www.criancaeconsumo.org.br - O que as fantasias significam para as crianças?
LFP
- Através da fantasia e do ato de brincar, a criança exercita comportamentos para o mundo adulto e elabora questões afetivas, ou seja, ela aprende brincando.

www.criancaeconsumo.org.br - O que representa “Tropa de Elite” para o imaginário brasileiro?
LFP
- O filme abalou a sociedade brasileira como um todo, mas, principalmente, a cidade do Rio de Janeiro que vive isso no seu cotidiano. Além disso, a imagem do capitão Nascimento se colou à figura de herói, de salvador.

Devido a presença maciça da mídia em nossas vidas, as pessoas geralmente se apoderam de termos, fantasias, figurinos e até mesmo comportamentos de personagens famosos. E, como “Tropa de Elite” foi um sucesso nacional, a sociedade civil se apropriou dos termos e gírias do longa e os usou na frente de crianças pequenas - o que não foi positivo.

A partir disso, as crianças foram conhecendo e se apropriando desse repertório e, talvez isso, tenha influenciado a escolha delas pela fantasia. Uma vez que o Capitão Nascimento se tornou herói nacional.


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