Música, mulheres e apelo sexual

O surgimento da MTV americana, em agosto de 1981, popularizou de vez, por meio da televisão, o videoclipe musical, trazendo uma nova tendência e moda que repercutiu por todo o mundo. Nascia então o que se convencionou a chamar de ‘Estética Videoclipe’, caracterizada por uma montagem fragmentada e acelerada, com narrativa não linear, imagens curtas, justapostas e misturadas, variedade visual, riqueza de referências culturais e forte carga emocional. Estética que ditou normas para o cotidiano dos jovens de várias gerações.

“Esse mecanismo audiovisual influencia e direciona pessoas no modo de consumir, de se vestir, agir e de ter seu próprio estilo. É um meio pelo qual pessoas, principalmente os jovens, se identificam e buscam uma forma de se padronizar conforme o grupo que convivem”, ressalta o estudo Videoclipe, estética e linguagem: sua influência na sociedade contemporânea, apresentado no 30º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado no ano passado.

Segundo o pesquisador Guilherme Bryan, os videoclipes e a própria MTV Brasil, inaugurada em outubro de 1990, são peças fundamentais para se compreender a geração de jovens da década de 90 e do início do século XXI. “O videoclipe também popularizou formas de comportamento, desde o modo de se vestir até a maneira de se gesticular e de dançar. Imagine o que seria de Madonna e Michael Jackson sem seus respectivos videoclipes?”, questiona Bryan.

Se as reflexões de Bryan e de outros estudiosos da área estiverem corretas, talvez realmente possamos vincular alguns videoclipes à representação do que é ser menina, jovem e mulher nos dias de hoje.

A equipe do RIO MÍDIA resolveu conferir videoclipes das cantoras pops americanas que, volta e meia, estão nas paradas de sucesso. Além de apresentarem um formato muito semelhante, os vídeos contêm um forte apelo sexual.

A observação vai ao encontro de um relatório divulgado no ano passado pela Associação Americana de Psicologia (APA). O documento afirma que as mulheres são retratadas – pela mídia de uma forma geral – como objetos sexuais.

O relatório de 72 páginas afirma que a mídia parece ensinar às jovens meninas que tudo o que elas têm a oferecer é o corpo e que, portanto, devem gastar todos os seus esforços na busca de uma aparência física idealizada. Ainda segundo o estudo, a mídia estereotipa a figura feminina e contribui desta forma para o machismo: “As meninas podem estar aprendendo a priorizar certas recompensas, como a atenção masculina, em vez de priorizar seus estudos e carreira profissional”.

As próprias capas dos álbuns das cantoras já mostram o quanto elas apostam no corpo como moeda de troca e de vendas. Acima, o leitor pode conferir as capas de DVDs de algumas cantoras que ao longo de suas respectivas carreiras foram imprimindo um forte apelo sexual.

O tema é polêmico e já foi inclusive abordado em um dos antigos programas da MTV Brasil. O Tribunal de Pequenas Causas Musicais debateu o forte apelo sexual presente nos clipes das principais cantoras americanas, como Britney Spears e Christina Aguilera. O programa fazia a seguinte pergunta aos telespectadores e internautas: quando o sexo está por cima, a música fica por baixo? O resultado foi o seguinte: sim (75%) não (25%). (Marcus Tavares)

Rio Mídia, sem data de publicação
link: Rio Mídia - Música, mulheres e apelo sexual